Foto Wendy Jolivot

Combatendo Fogueiras e Não mulheres


Esse texto é sobre o que há em comum entre ficar criticando outras mulheres por suas escolhas e o Martelo das Feiticeiras, sobre as consequências nefastas da separação entre sexualidade e espiritualidade na Idade Média. E, sobretudo, porque ser feminista é militar sobre direito de escolha das mulheres! E o que aprendemos da bruxa JK Rowling

COMBATENDO FOGUEIRAS E NÃO MULHERES

Estava fazendo uma escavação arqueológica, vulgo arrumação dos meus papeis e livros, quando achei um exemplar perdido numa pasta do livro Malleus Maleficarum, o título original em latim do Martelo das Feiticeiras, livro publicado em 1486 ou 1487. Trata-se de um manual de combate aos praticantes de heresias, um guia prático do inquisidor, um manualzinho de ódio, tortura e morte. Estima-se que de seis à nove mil pessoas tenham morrido, e 85% eram mulheres.

Três coisas sempre me chamaram a atenção: primeiro a incoerência total, a maior parte do que está descrito como bruxaria, não serve nem para mandinga de fim de ano na praia, e não chega nem aos pés de uma boa aula em Hogwarts, que aliás, concederia a JK Rowling uma boa fogueira, ou afogamento, no século XV como grande sacerdotisa bruxa.

A segunda coisa é que muitas mulheres foram queimadas por terem ou causarem orgasmos, muitas eram denunciadas por seus amantes porque não conseguiam parar de pensar naquela boa transa, ou por terem gritado e arranhado assustando o apaixonado; por terem largado o cara depois daquela noite ótima, pela vizinha que estava encalhada e não aguentava mais ouvir gritinhos noturnos, e por aí vai. Jung dizia “o homem ama menos a mulher como resultado da depreciação – e assim ela lhe parece uma perseguidora, isto é, uma bruxa. Daí a fantasia medieval sobre as bruxas. ” Psychological Types (Jung)

A terceiro coisa, e mais atual, é que a maioria das denúncias era de MULHERES contra MULHERES! Inveja, medo da concorrência, decepção com a parceira, ciúmes do namorado, insatisfação com remedinho de ervas. “Sororidade” total!

Pior é que, recentemente, o casamento real da plebeia Meghan Markle causou muita crítica das mulheres, que julgavam casar-se, ainda por cima com Príncipe, anti – feminismo. Teve até atriz, que se diz feminista, contra o casamento e num momento de “vidência” prevendo que daria errado. Poxa, continuamos julgando as amiguinhas e sua felicidade sexual e /ou conjugal?

Estamos criando um manual de ódio sobre o que é ser feminista?

Além disso, um dado histórico importante é que desde a Idade Média, sexualidade e espiritualidade se dissociaram, para que a união espiritual fosse somente com Deus, mas não foi sempre assim. Durante séculos, a sexualidade era um rito espiritual, o corpo da mulher era um templo.

Diversas sacerdotisas deitaram-se com homens desconhecidos para fazer o casamento sagrado, hiero gamos, representando a deusa, fosse em rituais das colheitas celtas, nas tribos do deserto no oriente, ou em templos como o de Afrodite na Grécia e no de Juno Sopita em Roma, onde carne e espírito uniam-se sustentando um ao outro no mistério do sexo, equivalendo-se a um rito religioso.

Vocês sabiam que era comum na Grécia uma jovem de altas rodas perder a virgindade no templo de Afrodite como um rito iniciático conhecido como prostituição sagrada? Talvez fosse preferível do que com um idoso desconhecido num casamento arranjado.

Como honrar essas mulheres que não puderam nem escolher com quem casar, nem com quem gozar, sem serem queimadas?Não andando em círculo, não andando a esmo, não plantando vento, não colecionando abobrinhas, não atacando as amigas. Combatendo fogueiras e não mulheres.

Feminismo é ter liberdade de escolha, o que essas mulheres do passado não tiveram. Milhares de mulheres antes de você foram afogadas, presas, torturadas, rotuladas, perseguidas para poderem ter uma opinião e fazer escolhas, fosse em casa, na cama, na política, ou nos salões.

Sororidade é respeitar a moça que quer ser solteira e a que quer achar um príncipe encantado, ou real, e a que quer gostar de moças, e a que quer ser amante do pirata, e a que ama feras. Porque militância pelo feminino, será sempre militância pelo direito de seguirmos nossos instintos, nossas escolhas e nossos ciclos.

O que pode acontecer quando nos apropriamos de um discurso masculino como se isso fosse revolucionário? Entre outras coisas, mulheres que vivem como se não tivessem nenhum valor, transando com qualquer um para se igualar ao cara mais cafajeste; mulheres que vivem para atender ao desejo do outro na cama, ou na vida.

Eu não as julgo.
Eu não as condeno.
Eu nãos as queimo.

Só desejo que encontrem alguém que ame seus limites tanto quanto seus desejos e que afetivamente conjugue com sua carne e seu espirito.

Sussurremos juntas no vento: nosso corpo ainda é um templo!

Então, Meg, não a conheço (desculpe, mas depois de assistir todo seu casamento, estou me sentindo íntima), no meu manual feminista só tem uma regra: amor a próxima. Sendo assim, miga, desejo felicidades, e se não rolar, faça uma terapia de casal, um cursinho de sexo tântrico, faça uma novena, ou o que sair da sua intuição. Casamento é investimento, mas se algum dia isso for incompatível com a sua felicidade, que isso não te aprisione: divorcie-se e que seja bom enquanto dure.

Ah, não se esqueça da sua conterrânea, a bruxa Rowling, tente um feitiço de proteção das invejosas, deve ter algo no livro, nas aulas de defesa contra artes das trevas, porque hoje você pode, porque hoje você não será queimada.