O amor… ah, o amor! Tema universal nas artes e na vida, o amor é nascente que verte afetações humanas incansavelmente. Uma definição precisa parece tarefa impossível. Podemos recorrer a dicionários e lá encontraremos algumas definições. Mas se voltarmos nosso olhar para a Filosofia e suas definições independentes de amor (Eros, Philos, Ágape e Fati), podemos supor que, de fato, amor pode ser definido de várias formas e, considerando que cada ser humano é um universo, podemos supor também que amar é uma experiência única e talvez diferente para cada pessoa.

Por isso, inicio esta reflexão com minha própria definição de amor: aceitar o outro como ele é. Na medida em que saímos da primeira fase da relação amorosa, do apaixonamento, a realidade vai se apresentando e vamos nos dando conta de que o outro não é tudo o que esperamos e desejamos. Não existe um parceiro ideal para nós. Nosso parceiro precisa ter alguns aspectos do nosso “ideal”, mas nunca terá todos. E sendo humano, trará consigo também sua parcela de defeitos – assim como eu e você, caro leitor(a).

    Se a relação consegue superar a fase da decepção que constitui o confronto com a realidade – as limitações e o negativo de cada um – ela evolui para uma fase de amadurecimento, onde as diferenças são aceitas e um diálogo verdadeiro pode ser estabelecido. É daí que parte minha definição de amor: aceitar o outro como ele é.

Entretanto, partindo de um lugar diametralmente oposto, essa definição pode ser utilizada para legitimar qualquer tipo de comportamento: “se você me ama você tem que me aceitar do jeito que eu sou” – e não é bem assim. No amor amadurecido, aceitamos o outro como ele é e o outro não invade nossos limites pessoais. Cada um tem seus próprios limites e é fundamental que eles sejam respeitados. Conhecer os próprios limites, comunicá-los ao parceiro e estabelecer contratos visando que eles sejam respeitados – esse é o exercício contínuo da relação amorosa.

Quando o outro viola um contrato estabelecido, podemos nos sentir desrespeitados, negligenciados ou invadidos. Os contratos são estabelecidos para evitar esses sentimentos – eles são uma proteção – e devem cumpridos. É claro que errar é humano e por vezes é necessário esforço e um pouco de tempo para se adaptar a um novo contrato. Porém, quando um contrato mutuamente estabelecido é constantemente ignorado, ele perde seu valor e razão de existir.

                Aceitar o outro como ele é não significa aceitar qualquer coisa. Significa ter consciência das limitações e do negativo do outro e seguir amando, valorizando suas qualidades e seus positivos. Quando a limitação e o negativo do outro nos machuca, nos invade, faz aflorar sentimentos de negligência, desrespeito, desvalor, o estabelecimento de contratos entra em cena. E vice versa, é claro. Os contratos nos protegem, protegem nosso parceiro e protegem também a própria relação. Comunicar claramente nossas necessidades é fundamental para estabelecer contratos claros e eficazes, e respeitar os contratos é respeitar a relação.

Então, pode acontecer de o parceiro concordar com um contrato, mas tomar a decisão unilateral de não respeitá-lo. É a tal da má fé – dizer que está de acordo com um contrato para se ver livre de uma situação, já sabendo internamente que não está disposto a cumpri-lo, deixando o parceiro vulnerável às feridas que seriam evitadas com o cumprimento do acordo. É nesse momento que o outro pode alegar: “se você me ama você tem que me aceitar do jeito que eu sou”, em uma tentativa de forçar o parceiro a permitir que seus próprios limites sejam ultrapassados em nome do amor.

Nesse caso, é fundamental lembrar que o maior amor que temos é o amor próprio. Que amar é respeitar os limites do outro – amor é cuidado. E sim, aceite o outro como ele é, como alguém que não respeita os contratos estabelecidos – aceite este fato. E siga sua vida longe dali. Aceitar o outro como ele é também pode nos libertar de insistir em um relacionamento que não nos faz bem. Nesse caso, a aceitação abre caminho para o novo. Porque toda pessoa tem o direito de ser feliz, mas a felicidade não é entregue de mão beijada, é preciso conquistá-la. E sim, você pode. Você merece ser feliz.