Apaixonar-se ou não se apaixonar – eis a questão. Há quem se apaixone com frequência, sempre em busca da sensação de encantamento paradisíaco que a paixão proporciona. Já outros relutam a uma entrega, pois nunca somos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão impotentes e infelizes como quando perdemos o objeto amado ou o seu amor, como nos ensina Freud. Mas será que escolhemos por quem nos apaixonamos?

O romantismo assegura a existência de “almas gêmeas”, mito presente na obra O Banquete, de Platão. Nessa visão, seguimos buscando incessantemente a outra metade que foi separada de nós, e vamos encontrá-la, mais cedo ou mais tarde. Assim, nos levantamos de cada queda, sacudimos a poeira de cada divórcio e separação e damos a volta por cima com a certeza de que a pessoa certa desta vez irá nos encontrar, e vice versa.

A psicanálise se refere ao processo de identificar parceiros amorosos como “escolha do objeto” e se refere também ao “objeto de amor”. O primeiro objeto de amor que todos nós temos é a pessoa que nos confere a atenção primária, geralmente a mãe. É a partir da relação originária com pai e mãe que aprendemos o que é o amor, de que forma é seguro amar e o quão merecedores de amor nós somos.

Enquanto o senso comum afirma que não escolhemos por quem nos apaixonamos, e o romantismo reafirma reiteradamente uma sempre nova busca pela pessoa certa, para a psicanálise nós escolhemos sim nossos parceiros amorosos, entretanto, não se trata de uma escolha racional. A psicanálise entende que essa escolha é feita com motivações inconscientes relacionadas ao primeiro objeto de amor. Escolhemos então, de maneira inconsciente, o que é conhecido… “familiar”, nos dois sentidos da palavra – parceiros que nos farão reviver a dinâmica relacional que tivemos com os pais na infância.

Por exemplo, uma pessoa que teve pais muito autoritários pode se encontrar com frequência se relacionando com parceiros igualmente autoritários. Mas nem sempre a repetição do padrão relacional é tão evidente. Essa mesma pessoa pode também se relacionar com uma pessoa que tem o hábito da mentira, por exemplo. Como a mentira estabelece uma forma sutil de controle, visto que quando alguém sabe algo que o outro não sabe isso lhe confere certo poder, então na escolha desse parceiro o padrão também se repete: é ainda uma relação de poder, embora o controle seja exercido de forma mais sutil.

Sem desconsiderar o enfoque psicanalítico, muito pelo contrário, podemos complementá-lo entendendo que essa repetição acontece também para que possamos evoluir a partir dela. Seja de forma evidente ou mais sutil, fato é que temos, a cada nova paixão, reiteradas oportunidades de reviver a relação originária da infância, porém como adultos, temos agora outras ferramentas e possibilidades de resposta.

A consciência da repetição do padrão traz luz ao caminhar obscuro dos corredores da paixão. Não nos apaixonamos aleatoriamente, nem pelas muitas qualidades que nos encantam no outro, mas sim para termos uma nova possibilidade de reviver a dinâmica relacional originária. E quem sabe, desta vez, possamos ativar os dispositivos internos do adulto e responder de forma diferente, de uma forma mais justa para nós – e assim nos curar.

Essa é uma jornada longa com grande potencial de cura que exige observação atenta e começa pela pergunta:

qual é seu padrão de escolha?

Foto:  John Schnobrich