Qualquer sentido me paralisa diante desta tragédia. Ver as cenas do desabamento cruel, me chocam… Ouvir os gritos, mesmo que silenciosos das vítimas, me surdam… O cheiro da lama derramada e o gosto amargo de corpos cortados em pedaços e espalhados pelo caminho, me impedem qualquer digestão… Tocar no ente querido estendido sobre uma prancha gelada do instituto médico legal ou misturado ao lamaçal, tarefa para poucos …

E foram esses poucos que acabaram por se tornar heróis, simplesmente porque não puderam, ou não tiveram a oportunidade de fugir. Bombeiros e voluntários anônimos, bravos, rastejaram pelo lodo tóxico, escarafuncharam cada pedacinho de terra auxiliados apenas por seu cães, passando noites mal dormidas e quiçá sem alimentarem-se, dedicando-se a salvar algumas poucas vidas, e, principalmente a dar conforto às famílias tão destroçadas por suas perdas irreparáveis e inconsoláveis. Esses sim, mesmo com seus salários atrasados e por muitas vezes mal pagos, não se negaram a prestar qualquer socorro à população. É deles (e só deles), o mérito.

É inadmissível ouvirmos novamente as mesmas explicações (?) e o inútil e decorado discurso das pessoas de sempre. No entanto, nunca vimos reais providencias sendo tomadas de lado nenhum: nem dos de sempre, tampouco dos de nunca… Falta atitude, falta vontade, falta apreço pelo próximo, falta respeito pela vida alheia, falta tudo… Sobra blá blá blá, sobram bravatas, sobra o deboche… Inversão de valores e cala-bocas; promessas não cumpridas. Corre-se atrás do dinheiro, das seguradoras ou dos supostos culpados; corre-se atrás da justiça (?) para que se postergue o quão mais seja possível e para que esta conta nunca seja paga. Sobra o deboche e falta vergonha na cara.

Como em Mariana, muito pesar, solidariedade e gente ajudando gente. Do fim ao cabo, é com eles que contamos: gente que nem a gente. A ganância, o esforço feito pelo mínimo, o jogo de empurra, a irresponsabilidade e as tais cabeças (ditas) pensantes, foram, sim, as grandes e únicas responsáveis por todo este horror. Tragédia anunciada há anos (!!!) por uma obra mal feita com puxadinhos e gambiarras daqui e dali, simplesmente para “otimizar” a tal estrutura. Terra de ninguém, que, ironicamente, hoje enterra seus filhos. Filhos da própria terra…. terra de ninguém…